DIADEMA / SP - SÃO THOMÉ DAS LETRAS / MG - 700KM
Percorida por : Tiago Oliveira
Partindo de São Paulo no dia 15 de dezembro de 2007 por volta das 11:45, o velho conhecido trânsito paulista dessa vez se propagou e encontrei o trecho final da Dutra completamente parado, então com garupa e alforje carregados (dificuldade e responsabilidade dobrada) toma-lhe pegar o corredor. Como se fosse pouco, é preciso batalhar os centímetros disponíveis para o guidon com motoristas que resolvem mudar de faixa no cara-ou-coroa e provavelmente já venderam os cabos do pisca, visto a inutilidade desse sistema nos seus veículos, além é claro da eterna negociação de velocidade com os motoboys ou motomanos que acham que 40 ou 60 km/h é pouco pra um corredor parado, sigo os poucos kilômetros da Dutra até o princípio do trecho em Guarulhos nesse belo começo de viagem até a entrada para a BR 381 Fernão Dias.
Como não é de ser surpresa, é de lá que vem o congestionamento que tomava as 4 pistas da Dutra, fazendo jus à alcunha “Rodovia Federal” nossa nobre equipe de obras achou por bem fazer reparos (eufemismo generoso para remendos alguns centímetros maiores, inclusive na altura, do que o buraco que eles não fazem questão de resolver) e o martírio se consome por mais alguns quilômetros até a dita obra.
Daí pra frente é a segunda fase do “se vira nos trinta” do DER: Remendos de buracos, buracos “como vieram ao mundo”, carcaças de cães mortos e o trânsito pesado já não é mais sua maior preocupação, quando você consegue passar da velocidade média de 80km/h o trânsito subitamente pára. Pelo menos três radares fixos de 60km/h numa rodovia expressa é solicitar um acidente grave com freqüência, e ainda tem um túnel sem iluminação (segundo as autoridades os fios de cobre são sempre roubados). Você, como eu naquele momento, já deve pensar “Que raios estou eu fazendo aqui?” mas espere.
Começa então o trecho de serra e as três pistas melhoram o fluxo de veículos na medida que cidades vão ficando pra trás. Sem dúvida o rodoanel diminuirá esse fluxo quando concluído. Passando Bragança e Atibaia a estrada realmente aparece e o asfalto é geralmente bom, permitindo uma boa aderência e poucas cidades após cruzar a divisa SP-MG a paisagem faz você deixar os problemas da cidade, na cidade. A partir de então são duas pistas bem pavimentadas, mas cuidado, curvas cegas costumam esconder algumas crateras bastante perigosas, sempre nas curvas. A mureta de divisão entre as pistas indica a experiência delas em segurar veículos desgovernados. Não se deixe distrair pela paisagem nas curvas e mantenha sempre uma área de manobra para as laterais no caso de ser necessário uma manobra para desviar dos buracos. Os quilômetros passam depressa nessa rodovia e não faltam lugares para parar e tirar fotos na beira da estrada.
Uma parada para abastecimento e esticada geral é necessária e existem bastante postos bons pelo caminho, mas como o foco principal da maioria são os caminhões, poucos tem gasolina aditivada, muito menos podium pra quem tiver alta compressão. Siga direto pela BR-381, onde a falta de informações parece preocupante às vezes e muitas das placas existentes estão sem as letras ou ainda informações do tipo “Belo Horizonte: KM” ou com o mato tomando parte das poucas informações disponíveis. Outro ponto que pode característico dessa estrada é que a maioria dos retornos são feitos pela faixa da esquerda, portanto cuidado com veículos diminuindo ou ganhando velocidade nessa faixa. Passando campanha pegue o segundo trevo à direita sentido Três Corações. Estrada vicinal sem acostamento de mão dupla, portanto velocidade máxima de 80km/h é a mais segura. Ela entra diretamente em Três Corações (cidade onde nasceu Pelé) e você cruzará o centro da cidade já seguindo as placas que indiquem São Tomé das Letras (ou a versão popular São Thomé das Letras, geograficamente incorreta), passando pela própria praça Rei Pelé (com a estátua que lembra um santo cabeçudo do grande boleiro, motivo de piada regional). Aí você percebe que está em minas começa o sobe-e-desce e os paralelepípedos.
Saindo de Três Corações você estará na MG-167 que leva pra Luminárias, São Bento Abade e São Tomé. Essa estrada merece atenção redobrada a linda paisagem e o asfalto bom escondem curvas de inclinação negativa e entrada de curvas suja de pedrinhas deixada pelos caminhões que entram e saem das fazendas ao longo da rodovia, e digo isso por experiência própria, eu mesmo já caí feio nessa estrada e por um milagre não tive maiores conseqüência para mim ou para a moto, velocidade entre 60km/h e 80km/h dão conta, mesmo pela curta distância percorrida nessa estrada.
Dependendo do horário essa estrada por si só é um espetáculo, nas primeiras horas da manhã, principalmente no inverno, a estrada fica suspensa sobre uma névoa púrpura pelos primeiros raios do sol. Nada melhor do que bandas dos anos 60 ou Zé Ramalho do mp3 nessas horas para se tornarem inesquecíveis. Nesse trecho a paisagem já muda para o princípio de cerrado e nos morros do horizonte já é possível ver o branco deixado pela pedra exposta nas pedreiras que extraem a mundialmente famosa pedra São Tomé, assim como a própria cidade suspensa sobre algumas pedreiras e destacada pelas antenas.
Já nessa estrada você pode visitar a cachoeira de Shangri-lá (maravilhoso, mas de acesso um tanto difícil por uma estrada de terra de temperamento inconstante dentro de uma fazenda, não é pra todas as motos, muito menos as customs carregadas, no meu caso) a Gruta do Carimbado (que segundo a lenda local termina em Machu Picchu no Peru) e a Ladeira do Amendoim onde uma pegadinha da natureza faz os carros subirem a ladeira ao invés de descê-la) e ainda a cachoeira do Vale das Borboletas, bastante fácil acesso e uma boa primeira visita pra quem está chegando na cidade.
Subindo a montanha do centro da cidade a íngreme estrada passa por dentro dos lixões das pedreiras (pedras pequenas demais e sem valor comercial que são utilizadas no artesanato local) não é das melhores paisagens pra chegada de uma cidade que também vive de turismo, mas tem quem ache a “decoração” bonita.
Chegando na cidade a moto sofre pelas ruas todas feitas de pedra (na verdade, a cidade é toda de pedra) e minha virago batia o quadro de leve no chão em alguns momentos, é impossível andar a mais do que 20km/h ou 30km/h. Procure uma pousada ou camping com estacionamento para sua moto, não é difícil encontrar pousadas de R$10,00 ou campings de R$5,00 mas eu fiquei na Pousada Reino dos Magos por R$60 o casal e gostei, apesar do estacionamento não ser coberto e não ter portão (a segurança só é preocupação em feriados quando a cidade fica muito cheia).
Deixe a garota (a moto!!) descansando na pousada e sai a pé. A cidade não tem mais do que uma dúzia de ruas, só sendo necessário um mínimo de preparo físico pra subir e descer as ladeiras que te obrigam a anda devagar apreciando essa bela cidadezinha. São Thomé deve ser explorada a pé.
A arquitetura local é a primeira impressão da cidade, boa parte das construções são feitas de grossas paredes de pedra empilhadas em placas sem argamassa e com placas de diversas espessuras se compensando, pra quem se interessa é instigador assistir os pedreiros locais levantando uma parede assim sem deixa-la torta.
Outras vantagens desse tipo de construção é o preço, o tempo para levanta-la e a estabilidade térmica da casa (ela demora a captar o frio da noite, só liberando para o interior pela manhã e mantém o calor do dia durante a noite).
Não é difícil encontrar bons restaurantes onde se come uma boa comida mineira no fogão a lenha por menos de R$10,00, nesse caso os restaurantes por quilo são a melhor opção, pra quem está disposto a pagar um pouco mais o restaurante o Alquimista na rua principal. O melhor lugar pra um lanche e um papo é no Café com Arte, na mesma rua já próximo a praça. Não saia de lá sem um mosaico, uma camiseta de aerografia ou ainda uma pintura no capacete ou na moto do Alexandre, excelente artista local e como muitos outros, oriundo da Grande São Paulo que trocou o pão de queijo de polvilho pelo pão de queijo de queijo. Em São Tomé, cada loja, restaurante, bar ou lanchonete pode render horas de boa conversa, a população como um todo é muito simpática e sempre de bem com a vida, é renovador pra um cidadão de uma cidade de concreto armado conversar com um cidadão da cidade de pedra empilhada.
Dentro da própria cidade existem pontos turísticos como a caverna que deu origem ao “das Letras” do nome da cidade além do topo da montanha com a casa do mirante, casa da pirâmide e o cruzeiro.
É nesse lugar que todos os dias se celebra um interessante fato da cultura local: O Pôr do Sol. Todo final de tarde o topo da montanha fica cheio de pequenos grupos e após alguns minutos você entende o motivo: Não há pôr-do-sol como o de São Thomé. Talvez pela altitude de 1400m, talvez pela vista de dezenas de km que existe em quase todas as direções, talvez pela poluição inexistente, o sol desce todo dia numa magistral sinfonia com o horizonte e as nuvens. São minutos que valem toda a viagem, não importa de onde você veio.
A noite chega e uma boa opção para o jantar é a pizza na pedra no restaurante Ser Criativo, numa autentica casa de pedra com paredes forradas de quadros hiper coloridos feitos apenas com cola e areia tirada das pedras locais, nas suas cores inacreditáveis. Boa hora também pra visitar as lojas de artesanato local, com destaque para a loja Trem Azul, na praça e para o shopping dos duendes com várias lojas de artesanato, pra quem gosta de misticismo ou hippismo, um prato cheio.
Para esses últimos a madrugada de São Thomé se volta novamente para o topo da montanha, com o emblemático bar do 2, hiper simples e onde a platéia dos shows, sempre improvisados (não espere nada próximo do Pulse do Pink Floyd, mas o espírito flower power está vivo lá) fica sentada ao longo da montanha escura, não terá um chopp brahma bem tirado, um red label on the rocks na mesa, uma cerveja austríaca gelada pra acompanhar ou um maravilhoso merlot chileno, um bom companheiro nessas horas é um amargo vinho barato, mas basta olhar pro céu e mergulhar nas estrelas. Assim como o pôr-do-sol, a madrugada mostra um céu único e mesmo que você não esteja a procura de discos-voadores (segundo os mais afoitos, corriqueiros no céu de São Tomé, mas nunca presenciado por esse que vos escreve) bastam alguns prazerosos minutos de observação para ver estrelas cadentes intensas o bastante para você terminar de falar “Olha a estrela cadente” e ela ainda estar lá. Incrível!
Existem diversos pontos de São Thomé que merecem ser visitados, mais afastados da cidade e ligados ao “centro” por estradas de terra precárias como o circuito das cachoeiras, com a Cachoeira da Eubiose, Cachoeira do Flávio e a belíssima Cachoeira Véu de Noiva (toda cidade tem que ter uma). Outro ponto que merece um dia inteiro é sobradinho, um pouco mais longe, mas imperdível pela beleza.
Foi lá que a Globo filmou a novela “Filhos do Sol”, que fez a cidade ser conhecida, mas não são todas as motos que chegam lá. Na dúvida, tome um ônibus que sai algumas vezes por dia do centro da cidade e volta no final do dia.
São Thomé é uma cidade turística às avessas e que passou por maus bocados pelo turismo predatório no começo dessa década, atraindo muitos com a má fama de “Jamaica Brasileira”, mas esse estigma já vem sendo superado e hoje a maioria dos seus visitantes querem realmente conhecer a cidade misteriosa que esconde algumas sociedades secretas, comunidades místicas e uma cultura única no país (comparável a Stonehenge na Grã-Bretanha, Macchu Picchu, Ilha de Páscoa) e uma natureza mutante e inesquecível. Não sai da minha rota favorita, me deixando com vontade de me mudar pra lá e deixar as preocupações com motomanos, estrada esburacada, trânsito assassino e ineficiência do estado à 350km de distância.
